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Psicologia

 

 

 

 

"Linguagem. S.f. 7. Ling. Todo sistema de signos que serve de meio de comunicação entre indivíduos e pode ser percebido pelos diversos órgãos dos sentidos, o que leva a distinguir-se uma linguagem visual, uma linguagem auditiva, uma linguagem tátil, etc., ou, ainda, outras mais complexas, constituídas, ao mesmo tempo, de elementos diversos". (Aurélio, 1998, pg. 396).

Para que possamos iniciar, dentro do conceito acima, convém examinarmos o conceito de comunicação, sob pena de começarmos a nos descomunicar, já que estaríamos supondo que todos possuem o mesmo conceito de comunicação, o que, caso não exista, proporcionará uma pequena babel: o grupo falando uma língua e os demais falando outra(s), certos de que o idioma de cada um é o correto.
A palavra comunicação, do latim communicatio, é composta de outras três: com (juntos), munis (presente, dádiva) e actio (ação). Temos, então, que comunicar é trocar presentes e os comunicadores, juntos, fazerem uma festa, não obstante ser necessário comunicar, também, coisas tristes.
Não é difícil perceber o quanto gostamos de colocar nosso presente por cima do presente do outro, em um momento em que nosso narcisismo nos leva a achar nosso presente muito superior, muitas vezes nos surpreendendo quando alguém duvida disso. Se meu interlocutor tiver maturidade e humor suficiente, poderá desistir da troca limitando-se a ouvir meu palavreado: mas nem sempre se está disposto a ouvir monólogos e ver rejeitadas suas contribuições. Até porque é mais fácil dar do que receber, já que dar nos faz sentir ricos, poderosos: receber é reconhecer a potência do outro, coisa que requer humildade.
O pior é que o fracasso da comunicação, da utilização da linguagem, acontece justamente com as pessoas que mais amamos, mais ainda com nossos parceiros e dentro da família. No entanto, poucas são as pessoas que têm consciência de tal dificuldade, e quando se procura terapia por dificuldades de comunicação e linguagem, em geral, é para dominar técnicas de venda ou empurrar "peixes" nos outros, bem dentro do "modelo de comunicação" que a mídia vende.
Muito do que passa como comunicação é simples ritual, e novas reações são freqüentemente determinadas por uma espécie de intercâmbio superficial. Nós aprendemos desde que nascemos que a imagem é mais importante do que a realidade. Aprendemos desde cedo a ficar calados e a esconder nossos verdadeiros sentimentos. É difícil nos comunicarmos de maneira direta, sincera e franca, mesmo quando se trata de pessoas importantes para nós.
Portanto, a comunicação humana depende de palavras, gestos e ações, ou seja, de linguagem, enquanto sistema de signos que serve de meio de comunicação entre os indivíduos. Quando este tripé, palavras, gestos e ações, se integra, é sinal de integração entre nossos momentos de evolução, quais sejam, o primeiro momento, que corresponde ao período intra-uterino e logo após o nascimento, onde reina os reflexos básicos para atender às necessidades vitais de sobrevivência e das sensações: do segundo momento, ou momento límbico, que corresponde à instituição dos vínculos afetivos, que proporciona as emoções e as infinitas nuanças dos sentimentos, quando o espaço vital se amplia incluindo o outro ser, surgindo a necessidade de contato, de proximidade: e o terceiro momento, o do neocórtex, que proporciona o pensamento, o raciocínio abstrato, a simbolização, tornando-se um ser histórico, com passado, presente e futuro.
Na prática, esta integração nem sempre é harmoniosa. Alguém, por exemplo, diz que gosta muito do companheiro enquanto sua mão o afasta ou seu rosto exprime repulsa, ou declara que não gosta do outro, mas sua mão o procura. É uma situação semelhante a estar diante de um semáforo que acende todas as luzes ao mesmo tempo. Se o impasse persistir com freqüência estará criado um problema de comunicação.
Se dissermos que uma união deve ser comunicativa, na realidade não estaremos dizendo nada. Todos os casamentos são comunicativos, verbalmente ou não. Uma mulher passar os seus cabelos longos amorosamente pelas costas do homem sem dizer uma palavra também é comunicação, tanto quanto os olhares furibundos, ou de repugnância, ou o recuo quando mencionado um beijo. A comunicação não verbal pode ser muito vigorosa.
Se a linguagem não é integrada, ou seja, se a palavra não corresponde a gestos e ações, é porque está desconectada dos níveis mais básicos - sensações e sentimentos. A pessoa emite, então, duas mensagens diferentes, incompatíveis até entre si. Ninguém melhor para ilustrar que o famoso João-sem-braço, que é bonzinho, não grita e nem dá soco, fala macio, não afrontando diretamente, negocia, agüenta, mas é perito em destruir, batendo sem querer e escondendo o braço sem perceber a dor do outro. Com os demais é prestativo, mas destina seus golpes para o companheiro, para a família em uma demonstração de que tem medo de expressar seus sentimentos e de novo não ser aceito, como, com certeza, lhe aconteceu na infância.
Comunicação madura implica troca em nível de símbolos que são culturais e sociais, ou seja, a linguagem. Não se pode usar as palavras a bel-prazer supondo que o outro vá traduzir o discurso como se fosse a mamãe que entendia os sinais. É necessário que se diga que a vida a dois, em família, realça as dificuldades emocionais. No social não é necessário expor certos aspectos da personalidade que ficam no seio familiar.
Amando, colocamo-nos nus e inteiros diante do outro. A comunicação amorosa, familiar, exige humildade e generosidade. Como Marília Gabriela disse em um artigo: "Custa dizer que me ama?". Às vezes custa muito para um faminto que não dá ao outro seu sanduíche.
Conversar é versar juntos. Um faz uma estrofe, o outro faz outra, e assim forma-se uma poesia. Quem versa sozinho, monologa. Renunciar à comunicação verbal, ou utilizá-la de maneira insuficiente é desprezar as incríveis possibilidades que o nosso cérebro permitiu ao ser humano. Somando-se a ela o gesto e a ação, brota o encontro e a harmonia. É a oportunidade de se colocar junto do outro sentindo e juntando a palavra à ação, trocando elaborações e reflexões.
É claro que o diálogo é fundamental e sem homem, nenhuma relação, seja ela entre marido e mulher ou pais e filhos, etc., poderia existir. Mas a percepção do outro que está à nossa frente como um ser humano é imprescindível. Não só no seio familiar, o relacionamento entre os cônjuges se fixa como maior parâmetro, são os primeiros modelos conhecidos pela criança de um casal, de uma relação.
Já se sabe, hoje, que o filho compreende as mensagens da mãe, inclusive suas insatisfações. Nesse espaço, nessa linguagem íntima de mãe e filho, os limites são imprecisos. No nascimento do indivíduo, a sexualidade se faz presente como linguagem, que proporcionará sua comunicação pessoal. Como conseqüência, temos que na maioria dos casos clínicos de casais, a queixa mais freqüente é em torno da sexualidade, que camufla a dificuldade real: a da falta de diálogo, de comunicação. E, em grande parte, estes desencontros comunicacionais se mostram tanto em relação à expressão de sentimentos, às expectativas de um em relação ao outro, quanto em relação às diferenças destas expectativas devido a crenças e valores sobre papéis diferenciados de homens e mulheres.
Os psicólogos americanos sublinham que as meninas aprendem a interpretar os sinais emocionais e a exteriorizar seu sentimentos, enquanto que os meninos são ensinados a minimizar certas emoções - principalmente as que representam vulnerabilidade, culpa, medo ou dor. A linguagem corporal do homem determina que o homem respire mais da barriga para baixo, em evidente destaque da energia sexual, enquanto que as mulheres respiram mais no peito, aberto à generosidade e aos sentimentos generosos. Ainda, no início de uma relação o homem fala mais para poder conquistar, ao passo que as mulheres falam mais a partir do momento em que se sentem à vontade com um homem. Tem-se então que homens e mulheres possuem concepções diferentes do que seja conversar, de se comunicar. Como casal, como família, precisamos nos dar conta das diferenças, de maneira a conhecer a linguagem dos outros e saltar sobre o abismo da comunicação entre homens e mulheres.
Devemos pensar que a melhor coisa a fazer é utilizar da linguagem de modo que o outro nos entenda.
Devemos nos lembrar, em uma comparação forçada do filme "Dança com Lobos". Se o personagem quisesse que os índios falassem a linguagem dele e aceitassem seus pontos de vista, estaria morto em "observação participativa", deixando-se assimilar, aprendendo a linguagem dos outros - e foi gostando cada vez mais, transformando-se ao ponto de escolher ser um índio.
"Quando deixamos nossas certezas de lado e aprendemos a nos comunicar como casal, como família, talvez possamos chegar a dançar com lobos - com grande e saudável prazer".


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COSTA, Moacir (Coordenador), Vida a Dois, São Paulo:Editora Siciliano, 1991, 7ªed.
ABREU, Clenar Denise, A Construção Emocional do Ser Humano, São Paulo:Revista Insight, março 1998
COELHO, Sonia Vieira, Além de Dois, Belo Horizonte:Publicação do CRP 4ª Região
SERPA, Dagmar, Terapia de Casal?, Reportagem da Revista Nova, agosto 1996
BARBOZA, Ruy Fernando, Dança com Lobos (amor sexualmente transmissível), SP:Revista Viver, março 1998
ROGERS, Carl R., Novas Formas do Amor: o casamento e suas alternativas, RJ:Ed Olympio, 1979, 5ª edição
STOLLER, Robert J., Masculinidade e Feminilidade - Apresentações do Gênero, SP, Editora Summus, 1997

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